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Evo, o mascote do EvoMedCaso clínico

Tontura que Mata x Tontura que Passa

Todo paciente com vertigem aguda levanta a mesma pergunta na emergência: é só o labirinto, ou é um AVC de fossa posterior começando? A diferença de conduta é enorme — e um exame neurológico bem feito, à beira do leito, costuma responder essa pergunta melhor do que parece.

Por que essa pergunta é tão cobrada

Vertigem aguda é uma das queixas mais comuns — e mais ansiogênicas — da emergência. Na grande maioria das vezes, a causa é periférica (labiríntica): VPPB, neurite vestibular ou doença de Ménière. São quadros desconfortáveis, mas benignos, que melhoram com tempo e manobra.

O problema é a minoria: um AVC isquêmico de cerebelo ou tronco encefálico (fossa posterior) também pode se manifestar como vertigem aguda isolada, sem a hemiparesia clássica que todo mundo associa a "AVC". É esse subgrupo que torna o diagnóstico diferencial de vertigem um dos temas mais clássicos — e mais perigosos de errar — de prova de residência em neurologia, emergência e otorrinolaringologia.

Este post não repete o protocolo de atendimento ao AVC isquêmico já estabelecido — isso já está no post sobre janela terapêutica e trombólise. Aqui o foco é um passo anterior: como reconhecer, só pelo exame clínico, que aquela vertigem específica precisa entrar nesse protocolo.

Central x periférico, lado a lado

Nenhum achado isolado fecha o diagnóstico sozinho — é o conjunto que direciona a conduta. Mas alguns pontos pesam mais que outros:

AspectoSugere central (AVC)Sugere periférico (labirinto)
Padrão temporalInício súbito, vertigem contínua (persiste por dias)Episódios desencadeados por posição (segundos, VPPB) ou vertigem contínua que melhora em dias (neurite vestibular)
Sintomas associadosDiplopia, disartria, disfagia, ataxia de marcha desproporcional à tontura, fraqueza ou parestesia em um lado do corpoNáusea, vômito e desequilíbrio leve — proporcionais à intensidade da vertigem, sem outros sinais neurológicos focais
CefaleiaCefaleia occipital ou cervical súbita e intensa (pensar em dissecção vertebral)Ausente ou discreta, não é o sintoma principal
Fatores de riscoIdade avançada, hipertensão, fibrilação atrial, diabetes, dislipidemia, tabagismo, AVC/AIT prévioGeralmente ausentes — paciente jovem e sem comorbidades vasculares não afasta causa periférica, mas reforça a hipótese
NistagmoVertical puro, torcional puro, ou que muda de direção conforme o olharHorizontal-torcional, unidirecional, que diminui com a fixação do olhar (fatigável)
Head impulse testNormal — olhos permanecem fixos no alvo durante a rotação rápida da cabeçaAnormal — sacada corretiva visível após a rotação rápida da cabeça
Dix-HallpikeNão se aplica ao raciocínio de VPPB (vertigem não é tipicamente posicional)Positivo, reproduz a vertigem com nistagmo característico (sugere VPPB)

O ponto contraintuitivo: head impulse NORMAL pode ser o sinal mais grave

A intuição de quem está começando costuma ser: "exame alterado = coisa grave, exame normal = tudo bem". No head impulse test (parte do exame HINTS, explicado abaixo), essa lógica se inverte.

No head impulse test, o examinador segura a cabeça do paciente e faz rotações rápidas e pequenas pra um lado e pro outro, enquanto o paciente mantém o olhar fixo num alvo (o nariz do examinador, por exemplo). Numa lesão vestibular periférica, o reflexo vestíbulo-ocular está prejudicado: os olhos "saem" do alvo durante o movimento e precisam de uma sacada corretiva pra voltar a fixar — isso é anormal, e aponta pra causa periférica.

Já no paciente com vertigem aguda persistente cujo reflexo vestíbulo-ocular está preservado — ou seja, o head impulse test sai normal, sem sacada corretiva — esse é justamente o achado que levanta a suspeita de causa central. Faz sentido quando se pensa no mecanismo: um AVC de tronco/cerebelo não costuma lesar o labirinto periférico ou o nervo vestibular, então o reflexo vestíbulo-ocular continua funcionando normalmente — é o cérebro "em cima" desse reflexo que está com o problema.

O exame HINTS, componente por componente

HINTS é o acrônimo (em inglês) de Head Impulse, Nystagmus e Test of Skew — três manobras de exame físico, feitas à beira do leito, pensadas especificamente pra um cenário: paciente com síndrome vestibular aguda contínua (vertigem que já dura horas a dias, não episódios curtos de segundos como na VPPB).

H

Head Impulse (impulso cefálico)

Central: Normal — contraintuitivo: o paciente com vertigem aguda contínua e head impulse NORMAL é o que acende o alerta pra causa central, não o oposto

Periférico: Anormal, com sacada corretiva do lado da lesão vestibular

I

Nystagmus (nistagmo)

Central: Muda de direção conforme a posição do olhar, ou é vertical/torcional puro

Periférico: Unidirecional, horizontal-torcional, mais intenso olhando para o lado são

TS

Test of Skew (teste do desvio ocular)

Central: Presente — desalinhamento vertical dos olhos no teste de cobertura alternada

Periférico: Ausente

Qualquer um dos três achados centrais já basta pra tornar o HINTS "positivo para central" — não é preciso que os três apareçam juntos. E um detalhe de indicação importa tanto quanto a técnica: o HINTS foi desenhado pra síndrome vestibular aguda contínua, não é a ferramenta certa pra investigar vertigem tipicamente posicional (aí a manobra de escolha é o Dix-Hallpike).

O que a literatura mostrou sobre o HINTS

O estudo que estabeleceu o HINTS como ferramenta de triagem (Kattah et al., publicado na revista Stroke em 2009) avaliou pacientes com síndrome vestibular aguda e pelo menos um fator de risco vascular, comparando o HINTS feito por examinador treinado contra a ressonância magnética com difusão feita precocemente. O resultado: o HINTS teve 100% de sensibilidade e 96% de especificidade pra identificar AVC central — e a RM com difusão, quando feita nas primeiras 48 horas, deu falso-negativo em 12% dos casos de AVC confirmados posteriormente.

É daí que vem a frase, hoje repetida em literatura de neurologia de emergência, de que o HINTS pode ser mais sensível que a RM muito precoce nesse cenário específico — porque AVC isquêmico de fossa posterior, principalmente lesões pequenas de tronco encefálico, pode não aparecer na difusão ainda nas primeiras horas.

Duas ressalvas importantes, que a própria literatura destaca: o resultado acima foi obtido por examinadores com treinamento específico em oculomotricidade — a acurácia cai bastante nas mãos de quem não pratica a técnica regularmente. E o HINTS não substitui a investigação de imagem quando a suspeita clínica continua alta: ele é uma ferramenta de triagem à beira do leito, não um substituto definitivo da TC/RM.

Conduta prática

HINTS sugestivo de central, ou qualquer red flag neurológico focal

Acionar protocolo de AVC: TC de crânio sem contraste (baixa sensibilidade pra isquemia precoce de fossa posterior, mas afasta sangramento) e RM com difusão — sabendo que a RM pode ser falso-negativa nas primeiras 24-48h, principalmente em lesões pequenas de tronco/cerebelo.

VPPB confirmada (Dix-Hallpike ou roll test positivos)

Manobra de reposicionamento de Epley (canal posterior, o mais comum) ou manobra específica para o canal acometido. Sem indicação de exame de imagem de rotina quando o quadro é classicamente posicional e o restante do exame neurológico é normal.

Suspeita de neurite vestibular/labirintite

Suporte sintomático (antieméticos e supressores vestibulares por curto período), reabilitação vestibular precoce — só depois de ter afastado razoavelmente uma causa central pelo quadro clínico e pelo HINTS.

Na dúvida — paciente idoso, com fatores de risco vascular, qualquer sinal neurológico focal associado ou HINTS que não fecha claramente como periférico — o caminho mais seguro é tratar como possível causa central até prova em contrário: observação, avaliação neurológica e neuroimagem, não alta precoce com rótulo de "labirintite".

Fontes

Kattah JA, Talkad AV, Wang DZ, Hsieh YH, Newman-Toker DE. "HINTS to Diagnose Stroke in the Acute Vestibular Syndrome: Three-Step Bedside Oculomotor Examination More Sensitive Than Early MRI Diffusion-Weighted Imaging." Stroke. 2009;40(11):3504-3510 (estudo original do exame HINTS, com os números de sensibilidade/especificidade citados acima). Achados conferidos também em conteúdo de neurologia de emergência em português, com a mesma lógica de interpretação do HINTS e dos red flags de vertigem central: medway.com.br. Este post resume o raciocínio clínico geral de diferenciação de vertigem aguda — é conteúdo educacional, não uma recomendação de conduta personalizada. A avaliação e a decisão de cada caso cabem à equipe de saúde que está atendendo o paciente.

Ver os casos clínicos do EvoMed →Ver também: AVC isquêmico — janela terapêutica e protocolo →

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