
AVC Isquêmico: Tempo é Cérebro
Reconhecimento dos sinais, por que a TC de crânio sem contraste vem antes de qualquer decisão terapêutica, e as janelas de trombólise e trombectomia — o protocolo clássico de atendimento ao AVC isquêmico, tema evergreen e muito cobrado em prova de residência.
Por que cada minuto importa
"Tempo é cérebro" não é só um slogan — é a lógica que organiza todo o atendimento ao AVC isquêmico. Durante a oclusão de uma artéria cerebral, o tecido em volta da área mais afetada (a chamada penumbra isquêmica) ainda pode ser salvo se o fluxo sanguíneo for restabelecido a tempo. Quanto mais os minutos passam, maior a proporção desse tecido que morre de forma irreversível.
A literatura de emergência costuma citar uma estimativa impressionante: em cada minuto de isquemia cerebral não tratada, cerca de 1,9 milhão de neurônios podem ser perdidos. O número exato varia conforme o estudo e o território vascular acometido, mas a ideia central — que a velocidade do atendimento se traduz diretamente em mais ou menos sequela neurológica — é o que justifica todo o protocolo a seguir.
Reconhecimento rápido: o mnemônico FAST
O mnemônico FAST (em inglês) é a forma mais difundida de reconhecer rapidamente os sinais de alarme de um AVC — tanto pro público leigo quanto como lembrete rápido na triagem:
- F
Face (Face)
Assimetria facial súbita — um lado da boca caído, dificuldade de sorrir igualmente dos dois lados.
- A
Arm (Braço)
Fraqueza ou dormência súbita em um braço (ou perna) — geralmente de um lado só do corpo. Peça pra pessoa levantar os dois braços: um lado pode cair.
- S
Speech (Fala)
Fala arrastada, confusa, ou dificuldade repentina de encontrar as palavras ou entender o que é dito.
- T
Time (Tempo)
Se qualquer um desses sinais aparecer de forma súbita, o tempo é o fator mais importante: anote o horário exato do início dos sintomas e acione o serviço de emergência imediatamente.
Outros sinais súbitos também podem indicar AVC: perda de visão em um olho ou parte do campo visual, tontura intensa com desequilíbrio, incoordenação, confusão mental ou dor de cabeça súbita e muito intensa. O ponto em comum de todos: início súbito. Déficit neurológico que aparece de repente, num paciente antes assintomático, é o padrão que acende o alerta.
Por que a TC de crânio vem antes de tudo
Clinicamente, um AVC isquêmico e um AVC hemorrágico podem se apresentar de forma parecida — os dois causam déficit neurológico súbito. Mas o tratamento de um é o oposto do outro: trombolítico ou anticoagulação favorecem sangramento, e dar qualquer um dos dois pra quem está tendo uma hemorragia intracraniana pode ser catastrófico.
Por isso, a tomografia de crânio sem contraste é o primeiro exame de imagem em qualquer suspeita de AVC — antes de decidir trombolisar, é preciso descartar sangramento. Ela é rápida, amplamente disponível em serviços de emergência e suficiente pra essa triagem inicial: sangue aparece hiperdenso (branco) na TC desde o início, enquanto os sinais de isquemia nas primeiras horas costumam ser sutis ou até ausentes — o que é esperado e não invalida o diagnóstico clínico.
O protocolo, passo a passo
- 1
Reconhecimento e acionamento
Reconhecer os sinais (FAST) e acionar o serviço de emergência o quanto antes. Anotar o horário exato do início dos sintomas é essencial — é esse horário que define se a pessoa está dentro da janela terapêutica.
- 2
Avaliação inicial e estabilização
Via aérea, respiração, circulação, glicemia capilar (hipoglicemia é um mimetizador clássico de AVC) e uma escala neurológica padronizada para quantificar o déficit.
- 3
TC de crânio sem contraste
Antes de qualquer decisão terapêutica, é preciso descartar AVC hemorrágico — trombolítico em paciente com sangramento intracraniano pode ser catastrófico. A TC sem contraste é rápida, amplamente disponível e suficiente pra essa triagem inicial.
- 4
Definir elegibilidade para reperfusão
Confirmado o padrão isquêmico (ou TC inicial sem sangramento, compatível com isquemia), avalia-se a janela de tempo, contraindicações e, quando disponível, exames de imagem complementares (angio-TC, perfusão) para guiar a decisão entre trombólise, trombectomia ou as duas.
- 5
Reperfusão — trombólise e/ou trombectomia
Trombólise endovenosa dentro da janela clássica, quando não há contraindicação. Em oclusão de grande vaso, trombectomia mecânica — inclusive em janela estendida, em pacientes selecionados por critério de imagem.
Trombólise endovenosa: a janela de até 4,5 horas
Confirmado o AVC isquêmico e afastadas contraindicações, o tratamento trombolítico endovenoso (com alteplase ou, mais recentemente, tenecteplase) pode ser oferecido dentro da janela clássica de até 4,5 horas do início dos sintomas — contadas a partir do último horário em que o paciente foi visto assintomático, e não do horário em que foi encontrado com o déficit.
Essa é a razão pela qual anotar o horário exato do início dos sintomas (ou o último horário visto bem) é uma das primeiras perguntas de qualquer atendimento de AVC — sem essa informação, a janela terapêutica não pode ser calculada com segurança.
Principais contraindicações:
- Evidência de hemorragia intracraniana na TC de crânio (é justamente por isso que a TC sem contraste vem antes de qualquer decisão terapêutica).
- Sintomas com início desconhecido ou fora da janela terapêutica estabelecida (sem critério de imagem que justifique extensão).
- Cirurgia intracraniana ou intrarraquidiana recente, ou traumatismo cranioencefálico importante recente.
- Sangramento ativo ou condição que aumente muito o risco de sangramento (incluindo uso de anticoagulantes fora de parâmetros seguros, a depender do fármaco e dos exames laboratoriais).
- Pressão arterial muito elevada e não controlada antes da infusão.
- Glicemia muito baixa ou muito alta, quando explica o quadro neurológico (mimetizador de AVC).
Essa lista cobre as contraindicações mais classicamente cobradas — o protocolo completo de cada serviço detalha critérios adicionais e escores de risco-benefício caso a caso.
Trombectomia mecânica: janela estendida por imagem
Quando o AVC isquêmico é causado por oclusão de um grande vaso intracraniano, a trombectomia mecânica — remoção do coágulo por cateter, guiada por imagem — é o tratamento de escolha, podendo ser feita em associação à trombólise endovenosa (quando esta também é indicada) ou isoladamente.
A grande vantagem da trombectomia é que sua janela terapêutica pode se estender bem além das 4,5 horas da trombólise, em pacientes cuidadosamente selecionados por critérios de imagem (avaliação de perfusão cerebral e da discrepância entre o tamanho do núcleo isquêmico já infartado e a área de tecido ainda potencialmente salvável). Isso significa que, mesmo fora da janela clássica, vale a pena investigar se o paciente é candidato — a decisão depende de exame de imagem, não só do relógio.
Metas de tempo porta-agulha: qualidade assistencial
Além do protocolo clínico em si, os serviços de emergência acompanham o chamado tempo porta-agulha (door-to-needle): o intervalo entre a chegada do paciente ao hospital e o início da infusão do trombolítico. Quanto menor esse tempo, melhor — e reduzi-lo é um dos indicadores de qualidade mais usados pra avaliar um centro de atendimento ao AVC.
Diretrizes e protocolos institucionais costumam estabelecer metas internas (por exemplo, um número de minutos como referência a ser batido) pra esse intervalo — o valor exato varia entre serviços e vem sendo progressivamente reduzido ao longo dos anos, à medida que os fluxos de atendimento (triagem rápida, TC de crânio prioritária, equipe de AVC acionada de forma padronizada) vão sendo otimizados. O conceito importante pra prova é esse: tempo porta-agulha é uma métrica de qualidade assistencial, e protocolos bem desenhados existem justamente pra minimizá-lo.
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