Pesquisa — dados oficiaisVagas de Residência Médica no Brasil: o que Mudou de 2018 a 2024
Um relatório da AMB, com estudo conduzido pela FMUSP e dados corrigidos de CNRM/Sesu/MEC e INEP/MEC, traçou a evolução das vagas de primeiro ano de Residência Médica (R1) no Brasil entre 2018 e 2024. A ociosidade de vagas caiu bastante — mas o quadro completo é mais complexo do que só essa boa notícia.
Vagas autorizadas, ocupadas e ociosidade, ano a ano
Vagas de R1 (acesso direto + pré-requisito), Brasil, 2018-2024. Fonte: CNRM/Sesu/MEC, citado no Informe Técnico nº 05 da AMB.
| Ano | Autorizadas | Ocupadas | Não ocupadas | % ociosidade |
|---|---|---|---|---|
| 2018 | 22.138 | 16.302 | 5.836 | 26,4% |
| 2019 | 22.406 | 16.796 | 5.610 | 25,0% |
| 2020 | 22.346 | 16.858 | 5.488 | 24,6% |
| 2021 | 22.968 | 16.594 | 6.374 | 27,8% |
| 2022 | 22.979 | 17.417 | 5.562 | 24,2% |
| 2023 | 23.526 | 18.272 | 5.254 | 22,3% |
| 2024 | 24.210 | 19.551 | 4.659 | 19,2% |
2021: Maior ociosidade da série — o próprio relatório aponta possível impacto da pandemia de Covid-19.
2024: Menor ociosidade e menor número absoluto de vagas não ocupadas de toda a série desde 2018.
Ressalva do próprio relatório: essa série não é comparável a divulgações de ociosidade anteriores a 2018, porque usa uma correção metodológica de falhas acumuladas no registro de dados da CNRM. A queda dentro da série 2018-2024 é real; a comparação com números de outras fontes ou anos anteriores, não.
Especialidades em alta — e uma mudança regulatória por trás da Medicina Intensiva
Maior aumento de vagas de R1 em número absoluto e em crescimento proporcional, 2018-2024.
Medicina de Família e Comunidade
+751 vagas
Maior aumento em número absoluto de vagas de R1 no período 2018-2024.
Clínica Médica
+679 vagas
Segunda maior em aumento absoluto.
Medicina Intensiva
+432 vagas (+242,7%)
Maior crescimento proporcional da série — mas o próprio relatório atribui o salto a partir de 2022 a uma mudança regulatória: a especialidade passou a ser de acesso direto e teve a duração alterada, não só a mais demanda.
Ginecologia e Obstetrícia
+213 vagas
Quarta maior em aumento absoluto.
Medicina de Emergência
+191,3%
Segundo maior crescimento proporcional da série.
Nutrologia
+83,3%
Terceiro maior crescimento proporcional (base de vagas pequena).
Genética Médica
+80%
Quarto maior crescimento proporcional (base de vagas pequena).
14 especialidades tiveram queda de vagas — destaque para as cirúrgicas
O relatório destaca sete especialidades cirúrgicas entre as que perderam vagas no período e relaciona essa queda à extinção do Programa de Pré-Requisito em Área Cirúrgica Básica (2 anos, que não titulava especialista):
- Cirurgia Geral
- Cirurgia Oncológica
- Cirurgia Plástica
- Cirurgia Torácica
- Cirurgia do Aparelho Digestivo
- Cirurgia de Cabeça e Pescoço
- Urologia
O descompasso entre formandos de medicina e vagas de residência
Esse é o dado que muda a leitura da queda de ociosidade: vagas sendo mais ocupadas não significa que ficou mais fácil entrar.
Déficit formandos x vagas de R1AD em 2018
3.886
Déficit formandos x vagas de R1AD em 2024
11.074
Recém-graduados estimados em 2023
~27.263
Vagas de R1 de acesso direto (R1AD) em 2024
16.189
Crescimento de matriculados na graduação (2018-2024)
+71% (167,7 mil → 287,4 mil)
Crescimento de médicos cursando RM, todos os anos (2018-2024)
+26% (37,7 mil → 47,7 mil)
Em 2024, as 16.189 vagas de R1 de acesso direto (R1AD) não foram suficientes para formar especialistas em quantidade equivalente aos cerca de 27.263 recém-graduados estimados de 2023. Essa defasagem cresceu de 3.886 vagas em 2018 para 11.074 vagas em 2024 — e o relatório afirma que "o déficit tende a crescer", citando a expectativa de mais de 42 mil novos médicos formados por ano no curto prazo, com base em escolas e vagas de graduação já autorizadas pelo MEC. Essa última parte é uma projeção do próprio estudo, não um número já observado — tratamos aqui como tal.
O relatório diz que essa tendência se afasta da legislação que previa a universalização das vagas de RM.
Mais contexto: instituições e programas também cresceram
Instituições que ofertam RM
846 (2018) → 1.011 (2024), cerca de +20%
Programas de Residência Médica
4.925 (2018) → 5.631 (2024), +14%
Antes de tirar conclusões: ressalvas importantes
A série de ociosidade 2018-2024 não é comparável a números de ociosidade de anos anteriores
O próprio relatório da AMB avisa: esses números vêm de uma correção metodológica dos dados da CNRM, e "não é comparável com divulgações anteriores, que apresentavam ociosidade superestimada, em função de falhas acumuladas no registro dessa informação nas bases da CNRM". Ou seja: a queda de ociosidade dentro da série 2018-2024 é real e consistente, mas não compare esses percentuais com números de ociosidade que você tenha visto em reportagens ou editais anteriores a 2018 — eles usavam uma base de dados diferente, com falhas já reconhecidas pela própria CNRM.
Ociosidade caindo não significa concorrência ficando mais fácil
Enquanto a ociosidade de vagas de R1 caiu de 26,4% (2018) para 19,2% (2024), o número de estudantes matriculados na graduação de medicina cresceu 71% no mesmo período — bem mais rápido que o crescimento de 26% no número de médicos cursando RM (todos os anos, R1 a R5). São dados concretos do próprio relatório, não previsão: mais vagas estão sendo ocupadas, mas o número de formandos de medicina cresce estruturalmente mais rápido que o número de vagas de residência. O próprio relatório descreve esse descompasso crescendo ano a ano (déficit de 3.886 vagas em 2018 para 11.074 em 2024) e afirma que "o déficit tende a crescer", citando a expectativa de mais de 42 mil novos médicos formados por ano no curto prazo, dado as escolas já abertas e vagas de graduação já autorizadas pelo MEC.
A alta de Medicina Intensiva e Cirurgia Cardiovascular tem causa regulatória, não só de demanda
Medicina Intensiva foi a especialidade com maior crescimento proporcional de vagas no período (+242,7%). O relatório é explícito: a partir de 2022, esse aumento (junto com o de Cirurgia Cardiovascular) reflete uma mudança na matriz de competências dessas especialidades, que passaram a ser de acesso direto e tiveram a duração do programa alterada — não é só um sinal de mais procura ou mais abertura de vagas por decisão orçamentária das instituições.
A queda nas cirúrgicas também tem uma causa regulatória específica apontada pelo relatório
Das 14 especialidades com queda de vagas no período, o relatório destaca as cirúrgicas (Cirurgia Geral, Cirurgia Oncológica, Cirurgia Plástica, Cirurgia Torácica, Cirurgia do Aparelho Digestivo, Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Urologia) e relaciona essa queda à extinção do Programa de Pré-Requisito em Área Cirúrgica Básica — um programa de 2 anos que não titulava o médico como especialista. Não é, necessariamente, queda de interesse por essas áreas.
Não extrapolamos nada para depois de 2024
Toda leitura de tendência neste post está amarrada a um número do próprio relatório, referente ao período 2018-2024. O relatório cita uma expectativa de mais de 42 mil novos médicos formados por ano "em curto prazo" com base em escolas e vagas de graduação já autorizadas pelo MEC — isso é uma projeção do próprio estudo, não um dado observado, e é apresentada aqui como tal, não como fato consumado.
Sobre a publicação
AMB (Associação Médica Brasileira), com estudo conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). "Demografia Médica no Brasil — Panorama da Residência Médica: Oferta, Evolução e Distribuição de Vagas (2018-2024)." Informe Técnico nº 05, novembro de 2024. Dados de CNRM/Sesu/MEC e INEP/MEC, com correções metodológicas descritas no próprio relatório; cita também Scheffer M. et al., "Demografia Médica no Brasil". Documento completo em amb.org.br. Este post é conteúdo educacional e informativo sobre dados oficiais de oferta de vagas de RM — não é uma previsão de edital específico nem substitui a leitura de editais de residência médica, cuja análise você encontra nos outros posts do nosso blog.
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